quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Maria de Lourdes Tavares Soares - conta histórias

Um povo com expressão é um povo com atitude, que sabe preservar a sua herança cultural e valorizar a sua identidade.

A autora de livros infantis Maria de Lourdes Tavares Soares tem uma vasta experiência em histórias para crianças. Ao longo de anos
soube transmitir aos seus alunos memórias que vêm de infâncias longínquas. Na publicação "Histórias de Longe e de Perto - histórias, contos e lendas de povos que falam também português” valoriza lendas e contos que atravessaram diferentes épocas, culturas e fronteiras. A autora reflecte preocupação em promover a interculturalidade, revelando grande consciência do impacto que estas "memórias" têm na formação das crianças enquanto futuros leitores e cidadãos activos de um mundo se quer melhor.
Publicado pela Paulinas Editora(2003, transcrevo aqui a História de:
O Cavalinho das Sete Cores (Portugal)"Um conde tinha ficado cativo na guerra dos mouros. Levaram-no ao rei para que fizesse dele o que quisesse. Tinha o rei três filhas, todas três muito formosas, que pediram ao pai que o deixasse ficar prisioneiro no castelo até que o viessem resgatar. A menina mais velha foi ter com o conde e disse-lhe que casaria com ele se lhe ensinasse qualquer coisa que ela não soubesse. O cativo disse:
- Pois ensino-te a minha religião, e vens comigo para o meu reino, e casaremos.
Ela não quis. Deu-se o mesmo com a segunda.
Veio por sua vez a menina mais moça: quis aprender a religião, e combinaram fugir do castelo, sem que o rei soubesse de nada. Disse então ela:
- Vai à cavalariça, e hás-de lá encontrar um rico cavalinho de sete cores, que corre como o pensamento. Espera por mim no pátio e partiremos ambos.
Assim fez. A princesa apareceu com seus vestidos de moura, com muitas jóias, e à primeira palavra que disse logo o cavalinho das sete cores se pôs nas vizinhanças da cidade donde era natural o cativo conde.
Antes de chegar à cidade havia um grande areal; o conde apeou-se, e disse à princesa moura que esperasse por ele, enquanto ia ao seu palácio buscar fatos próprios para aparecer na corte, porque estava com roupas de cativeiro e ela de mourisca.
Assim que a princesa ouviu isto, rompeu em grande choro:
- Por tudo quanto há, não me deixes aqui, porque hás-de-te esquecer de mim.
- Como é que isso pode ser?
- Porque assim que te separares de mim e alguém te abraçar logo me esqueces completamente.
O conde prometeu que se não deixaria abraçar por ninguém, e partir; mas assim que chegou ao palácio a sua ama de leite conheceu-o, e com a alegria foi para ele e abraçou-o pelas costas. Não foi preciso mais; nunca ele se pôde lembrar da princesa. Ela tinha ficado no areal, e foi dar a uma cabana onde vivia uma pobre mulher, que a recolheu e tratou bem; ali foi ter a notícia que o conde estava para casar com uma formosa princesa, e na véspera do casamento a mourinha pediu ao filho da velha que levasse o cavalinho das sete cores a passear no adro da igreja em que haviam de casar.
Assim foi; quando chegou o noivo com o acompanhamento, ficou pasmado de ver um tão belo cavalinho, e quis mirá-lo de mais perto. O moço que o passeava andava a dizer:
Anda, cavalinho, anda,
Não esqueças o andar,
Como o conde esqueceu
A moura do areal.
O noivo lembrou-se logo da sorte que lhe tinha caído, desfez o casamento com a princesa e foi buscar a mourinha com que casou e viveram muito felizes."

Conto tradicional – Maria de Lourdes Tavares Soares e Maria Odete Tavares Tojal
”Histórias de Longe e de Perto - histórias, contos e lendas de povos que falam também português” p.14
Paulinas Editora(2003)

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